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Luiz Valério P.Trindade
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Comumente diz-se que o brasileiro deixa tudo para a última hora, procrastinando todo e qualquer compromisso importante. Diz-se também que o povo brasileiro não tem memória histórica e esquece (ou desvaloriza) tudo com muita facilidade. Adicionalmente, é frequente ouvirmos também a máxima de que os cidadãos brasileiros não sabem votar e, consequentemente, residiria aí grande parte da origem de nossos endêmicos problemas políticos (tais como casos fragorosos de corrupção, má gestão dos recursos públicos, nepotismo, serviços públicos essenciais muito deficientes e por aí vai).

 

No entanto, eu me pergunto: será que é tão simples assim? Será que é de fato justo estabelecer-se esta correlação direta indefinidamente?

 

Indo um pouco mais além, até que ponto as máximas expostas no início desta crônica podem ser consideradas como verdades absolutas?

 

Minha percepção é de que elas foram criadas em algum momento no passado (sabe-se lá por quem e com que propósito) e, comodamente, foram atribuídas e aceitas como sendo a descrição precisa do comportamento coletivo nacional.

 

Como elas raramente são contestadas, com o passar do tempo foram incorporadas nas crenças e valores coletivos e transmitidas de uma geração para a outra subsequente e desprovidas de análise crítica.

 

Entre este pequeno grupo de máximas (e digo pequeno porque certamente existe muito mais), gostaria de me debruçar sobre a afirmação de que o brasileiro não sabe votar.

 

Eu indago: será que é justo atribuir este fardo pesado sobre os ombros dos cidadãos? Particularmente falando, considero que não. E nesse aspecto nem vou entrar no mérito de discutir se isso, realmente, foi corroborado por fatos no passado porque não vem ao caso no âmbito desta crônica.

 

Inicialmente, considero ser possível observar que a história democrática republicana de nosso país é extremamente recente e muito jovem em comparação com outras nações onde este processo já está muito mais maduro e bem consolidado.

 

Neste contexto, nota-se, por exemplo, que nossa atual constituição federal ainda não completou 30 anos de existência e neste mesmo horizonte temporal, saímos de um período de quase duas décadas de rígida ditadura militar que havia suprimido os direitos civis mais básicos dos brasileiros.

 

Só este cenário já contribui para sinalizar que a nossa experiência democrática com alternância de poder por intermédio de eleições livres e diretas é ainda bastante imberbe.

 

Ademais, o fator que considero preponderante no atual cenário político nacional aquém de nossas aspirações e expectativas reside não na forma como o brasileiro vota, mas sim na oferta de candidatos. E a oferta a que me refiro não é de ordem quantitativa e sim qualitativa.

 

Independentemente de corrente partidária mais à esquerda, mais à direita ou central, invariavelmente as opções de candidatos a cargos eletivos majoritários são de baixo nível e, o que é pior, não há renovações pois, na maioria das vezes, os candidatos são predominantemente os mesmos.

 

Não é nem um pouco difícil constatar que muitos eleitores utilizam como régua em seu processo decisório não a métrica do melhor candidato, mas sim a do menos ruim.

 

Considero que este parâmetro é danoso para a democracia porque ele nivela os eleitos por baixo e, ademais, evidencia um grande descontentamento da população com aquela figura pública que deveria representá-lo no processo de análise, debate e deliberação em torno de inúmeras questões vitais para a coletividade.

 

Entendo também que, subliminarmente, ao adotarem esta postura, os eleitores transmitem um sutil recado: não confio no desempenho e seriedade de nenhum dos candidatos, porém, como não posso deixar de votar, vou escolher o que creio que comprometerá menos (isso é claro, quando a pessoa não anula ou vota em branco). Fazendo uso de outra máxima, possivelmente eles pensem que “muito ajuda quem não atrapalha”.

 

Observa-se também que, historicamente, nosso modelo político onde tem-se uma elevada repetição de candidatos em sucessivas eleições remonta à condição análoga à encontrada na época da proclamação da república em 1889. De acordo com o jornalista Laurentino Gomes em seu livro “1889”, “quem mandava era a mesma aristocracia rural que havia dado as cartas na época da Monarquia”. Ou seja, ele evidencia a manutenção de um modelo onde desde aquela época, a alternância de poder se dava predominantemente entre os mesmos grupos restritos que já detinham o poder e se esmeram em mantê-lo em suas famílias.

 

Faça um levantamento, por exemplo, na Câmara dos Deputados e constatará quantos parlamentares estarão em seu enésimo mandato e/ou são filhos, quando não até netos de legisladores pregressos.

 

Desta forma, o que nossa jovem democracia necessita é de novas lideranças com propostas realmente sérias e longevas e não apenas eleitoreiras e efêmeras que não duram mais que um mandato (quando muito). Lideranças, em todas as esferas de poder, que enxerguem o estado brasileiro como um todo que necessita evoluir muito em direção a maior justiça social e não como um mero instrumento para ser usado em proveito próprio ou como alavanca de projeto de perpetuação no poder, sem oferecer contrapartida equivalente para o país.

 

Portanto, sou partidário do ponto de vista que a máxima de que o brasileiro não sabe votar não conta toda a história. Se a cada pleito não lhe fosse oferecido sempre mais do mesmo, os eleitores seguramente não se contentariam em votar no menos ruim e sim no melhor candidato e nossa democracia poderia evoluir mais celeremente e com muito mais consistência.

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