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Luiz Valério P.Trindade
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O Reflexo das Águas
 
Há um pensamento famoso atribuído a Heráclito que diz que “Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”.
 
Considero também que nem sempre temos a oportunidade de revisitar um local distante que, por algum motivo, tenha marcado profundamente a nossa história pessoal. E quando digo distante, não estou me referindo a um bairro vizinho ou a uma cidade situada a poucos quilômetros de casa, mas sim a locais que demandam um deslocamento bastante considerável. Pode ser, por exemplo, uma cidade do interior do estado onde você reside, em outro estado, outro país ou até mesmo, em uma situação um pouco mais extrema, outro continente.
 
Não estou com isso querendo depreciar algum lugar especial que fique próximo a você. Não se trata disso. O que acontece é que, avalio que em tais circunstâncias, a dificuldade de acesso é relativamente pequena e, não bastasse isso, seu distanciamento das transformações pelas quais o local venha a passar ao longo do tempo também é menor. Consequentemente, é muito provável que as sutilezas escapem à sua percepção.
 
Em contrapartida, quando este local não é tão acessível assim e você é agraciado com a possibilidade de regressar a ele muito, muito tempo depois, a emoção é incomensurável.
 
Você transita pelo local com olhares maravilhados por testemunhar as incontáveis transformações ocorridas enquanto esteve ausente e também por se recordar de outras que continuam lá imutáveis e impassíveis à passagem do tempo.
 
Paralelamente, o seu coração se inunda desta emoção incontida e de difícil explicação, pois você se sente dividido. Metade sua tenta se transportar para a época em que você ali esteve e vivenciou seus momentos especiais e marcantes. Já a outra metade, observa tudo com o olhar atual a partir de sua experiência de vida, tudo o que você já aprendeu desde aquela época e a pessoa que a vida forjou. E todo este processo ocorre automaticamente, simultaneamente, constantemente mesmo que você nem se dê conta conscientemente.
 
O caminhar pelas ruas do lugar se torna um processo curioso porque, em alguns instantes, tem-se a sensação de que não estamos tocando o solo e sim levitando, planando sobre o lugar como se fosse uma gaivota aproveitando as correntes de vento para se deslocar nos céus sem fazer esforço. Nem todas as pessoas (ou a maioria, para dizer a verdade) lhe são familiares e elas, por sua vez, mal podem imaginar o quanto aquele local representa pra você.
 
Será que elas imaginam que naquela cafeteria onde hoje degustam um chocolate quente com bolo fresco, outrora fora um casarão do início do século passado e que você um dia o viu ereto exatamente ali naquele ponto (quiçá até tem uma foto de recordação guardada em algum lugar)? Seguramente que não. Será que elas são capazes de imaginar quantas e quantas histórias você já vivenciou naquelas alamedas por onde hoje as crianças correm despreocupadas com seus patinetes e skates? Também não creio.
 
Realmente, as águas do rio já não mais as mesmas e você hoje é uma pessoa mudada. Muito mudada. Alguns traços permanecem os mesmos (assim como alguns dos aspectos do lugar como você pode perceber), porém, na essência, vocês dois mudaram. Contudo, se por um lado, o rio não retém os reflexos de quem um dia se banhou em suas águas, a nossa memória mantém o registro de momentos que nos são valiosos e marcantes.
 

 

Portanto, considero que esta situação contribui também para reforçar o pensamento do quanto é valioso aproveitar, desfrutar, vivenciar e valorizar ao máximo que pudermos o momento presente, pois do futuro nada sabemos (por mais que o homem se esforce em prevê-lo) e do passado permanecem unicamente os reflexos do rio em nossa mente.

 

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