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Luiz Valério P.Trindade
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Versar sobre a histórica, inédita e acachapante derrota sofrida pela Seleção Brasileira contra a Alemanha na chamada “Copa das Copas” seria, mais ou menos, como se diz popularmente, bater em bêbado. E na verdade, o objetivo desta crônica nem consiste em falar sobre futebol propriamente dito e sim muito mais em desenvolver algumas análises críticas a partir deste episódio marcante em nossa história recente.

Se realizarmos uma breve regressão temporal para os cinco ou sete anos que antecederam o pontapé inicial da competição esportiva, não é difícil constatar quanto otimismo a perspectiva deste evento estava injetando em nossa nação. Sob o prisma esportivo, muitos anteviam que seria a oportunidade tão longamente aguardada de extirpar, de uma vez por todas da memória coletiva o Maracanazo de 1950. Sob o ponto de vista econômico, havia diversos analistas que sinalizavam o grande potencial de alavancagem do PIB (Produto Interno Bruto) que este evento poderia contribuir já que algumas nações que sediaram o evento antes de nós haviam experimentado tal efeito. Por fim, parcela considerável da população também nutria grandes esperanças diante dos possíveis avanços e melhorias em infra-estrutura urbana, sistemas de transporte público e do tão propalado “legado” pós-Copa que as autoridades gostavam de proferir a plenos pulmões. A propósito, este termo foi tão amplamente utilizado durante aquele período que mais se parecia com um brinquedo novo que a criança ganha de Natal ou aniversário e não se cansa de mostrar para os coleguinhas.

Contudo, sabemos hoje que tudo não passou de uma quimera e discursos ao vento, tendo o Mineiraço como divisor de águas e choque de realidade. Ao invés de exorcizar, por assim dizer, o fantasma de 1950, criou-se outro bem maior com potencial de reverberar por muitos anos. No entanto, avalio que muito mais importante do que a derrota em si é o simbolismo por trás dela, pois ela tem a capacidade de evidenciar aspectos que suplantam as quatro linhas.

Nesta linha de raciocínio, considero que existem algumas chagas profundas em nossa sociedade que perduram muito mais tempo do que qualquer fantasma de derrotas esportivas e provocam efeitos práticos bem mais danosos. Só para citar alguns poucos exemplos, para não me estender em demasia, verifica-se que planejamento prévio, sério e levado realmente a cabo parece ser uma espécie de ofensa onde impera o jeitinho e o improviso de última hora. Os erros passados muito raramente servem de aprendizado para aprimoramentos futuros já que invariavelmente eles continuam se repetindo. Interesses privados ou restritos a um pequeno grupo de privilegiados frequentemente se sobrepõem ao interesse coletivo. A visão de futuro de grande parte de nossos governantes nas três esferas de poder executivo limita-se unicamente ao seu próprio mandato e, quando muito, ao próximo quando se ambiciona obter a reeleição, de tal forma que o(a) sucessor(a) tem sempre que começar do zero. Se há alguns anos, conquistar a chancela de grau de investimento pelas grandes agências internacionais de avaliação de risco era visto como algo desejável e que nos posicionaria em um patamar diferenciado mundialmente em termos de solidez e maturidade econômica, agora que ele foi perdido diz-se descaradamente que não tem relevância alguma e que as agências não sabem nada. Inclusive, observa-se muito claramente que este episódio em particular é resultante da contumaz miopia de se deixar embriagar pelo tempo de bonança imaginando que ele será eterno, e deixar de promover os ajustes e aprimoramentos necessários quando se tem fôlego de sobra para tal. Depois que a bonança se vai, só resta consertar o carro com ele em movimento e penso ser desnecessário dizer que em tais circunstâncias é bem mais difícil.

Ainda no campo das derrotas acachapantes, verifica-se que na década de 1960 o Brasil e a Coréia do Sul apresentavam indicadores sócio-econômicos equivalentes, ambos estavam em condição de sub-desenvolvimento econômico e a renda per-capita brasileira era o dobro da coreana. Passados pouco mais de cinco décadas, a renda per-capita do país asiático é quase o triplo da nossa, o país está constantemente no topo das avaliações internacionais de desempenho educacional enquanto ocupamos sistematicamente a rabeira de tais indicadores. Ou flertando com a zona de rebaixamento para recorrer a um jargão futebolístico.

Portanto, a percepção que fica é que o simbolismo do choque de realidade promovido pelo sonoro sete a um ainda não foi capaz de provocar o eco necessário no sentido de que precisamos de fato (e não unicamente nos discursos falaciosos) aprimorar nossas instituições e, principalmente, o modelo de governança. Ou então, de quantos outros sete a um iremos precisar até que a lição seja realmente aprendida e posta em prática?

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