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Luiz Valério P.Trindade
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Em junho de 2013, praticamente o Brasil inteiro (ou pelo menos as principais metrópoles) foi dominado por maciças e espontâneas manifestações de rua por parte de cidadãos protestando contra a corrupção crônica e endêmica, baixa qualidade dos transportes públicos, violência, baixo nível de nossas escolas, sistema público de saúde precário, entre outras bandeiras. Neste cenário, ficou amplamente conhecida a expressão “padrão FIFA” para caracterizar o que é considerado como de alto nível, organizado, funcional e muito qualificado.

Entendo que o teor das reinvindicações eram todos altamente legítimos, apropriados e pertinentes. Além disso, a reverberação desta mobilização foi muito ampla e superou nossas fronteiras, pois o mundo todo a noticiou. Isso sem falar, é claro, no fato de que demonstrou que, ao contrário do imaginário popular, o povo brasileiro é capaz sim de se indignar com coisas erradas e se mobilizar para protestar contra elas e fazer-se ouvido pelas autoridades.

Contudo, gostaria de propor uma análise deste fenômeno sob outro ponto de vista que considero que foi, ou tem sido, muito pouco explorado e que é de ordem comportamental.

O que observo é que se, por um lado, muitos se manifestaram exigindo serviços públicos de “padrão FIFA”, por outro lado, lamentavelmente, muitos não se comportam com o nível condizente a este “padrão”.

Em outras palavras, se por exemplo, a prefeitura instala novos e modernos abrigos em pontos de ônibus, dotados de comunicação visual com a informação dos itinerários e linhas de ônibus que param ali, um ou mais indivíduos se acham no direito de pichar a informação, rasgar o adesivo, colar alguma coisa por cima, isso é “padrão FIFA”? Acredito que não.

Se uma determinada linha de ônibus incorpora novos veículos à sua frota e, de novo, um ou mais indivíduos riscam os acentos, cortam o estofamento com estilete, grudam chiclete em tudo quanto é canto, rabiscam nos vidros, isso pode ser considerado como “padrão FIFA” de comportamento? Também não creio nisso.

Depredação de telefones públicos e/ou afixação de incontáveis adesivos com “propagandas” de gosto duvidoso (pra dizer o mínimo), é um comportamento digno de “padrão FIFA”? Seguramente que não.

Desrespeitar (ou até mesmo ignorar) faixa de pedestres, não conceder-lhes voluntariamente a prioridade ou “estacionar” o carro sobre a calçada como e fosse o gesto mais normal do mundo é comportamento “padrão FIFA”? Logicamente que não.

Abandonar sofás, pneus de carros, colchões, móveis velhos, entre outros objetos de grande porte na calçada na calada da noite na expectativa que eles se desintegrem como um passe de mágica ou que “alguém” os recolha está alinhado com o “padrão FIFA”? Acredito que a primeira chuva forte de verão será capaz de responder muito facilmente à questão.

Enfim, poderia listar tranquilamente algumas outras dezenas de exemplos análogos ou até mais anacrônicos que estes mencionados, mas considero que já foi possível ilustrar muito claramente a argumentação e linha de raciocínio.

Esses exemplos contribuem assim para evidenciar que exigir serviços públicos de qualidade superior é legítimo e válido. Isso se chama exercer sua cidadania. Porém, o exercício da cidadania exige que a contrapartida a ser dada pelo cidadão seja na mesma moeda. É uma troca. Uma via de mão dupla. Direitos e deveres são complementares e não excludentes. É através desta relação biunívoca que as sociedades funcionam.

De nada adianta demandar que tudo seja perfeito, lindo, maravilhoso, impecável, organizado, funcional e limpo se no instante imediatamente seguinte em que o serviço é fornecido ele é deteriorado por seu próprio usuário e beneficiário.

Rabiscar o coletivo ou bens públicos com palavras de ordem (ou até mesmo com impropérios) não servirá de veículo para demonstrar para nenhuma autoridade pública que a pessoa está insatisfeita, pois eles jamais irão ler aquilo. Para protestar e manifestar suas ideias, insatisfações e propostas, existe uma enormidade de canais legítimos muito mais apropriados para este fim.

Neste contexto, recordo-me que certa vez, um motorista foi inquirido por um repórter por que ela jogava bituca de cigarros pela janela de seu carro. A resposta foi “porque isso gera emprego, já que alguém terá de limpar a via”.

Guardada as devidas proporções, avalio que este pensamento no mínimo medieval, mesmo que inconscientemente, é o que predomina na mente destas pessoas que não apresentam comportamento “padrão FIFA”. Ou seja, eles danificam o patrimônio público de forma totalmente despreocupada porque pensam (se é que este verbo é o mais apropriado para designar esta ação, mas tudo bem) que “alguém” irá consertar, arrumar, limpar, repor ou reformar. De acordo com esta torta linha de raciocínio, é uma obrigação do Estado providenciar tudo isso.

É como se estes indivíduos acreditassem que, de alguma forma, existe uma espécie “mão invisível” (para pegar emprestada a expressão de Adam Smith de 1776) super poderosa e capaz de consertar todos os estragos que eles fazem, não importando quantas vezes for feito.

Portanto, para finalizar, considero que, como sociedade, deveríamos pensar seriamente sobre este cenário e passar a exigir não só que o poder público nos forneça serviços no chamado “padrão FIFA”, mas também que eles não sejam objeto de degradação gratuita por indivíduos que não os valorizam e nem tampouco respeitam seu próximo.

Grande parte (para não afirmar que são a totalidade, pois não tenho esta informação) dos praticantes destes atos de destruição e, sobretudo de danificação do patrimônio público são usuários do próprio sistema. Ou seja, o contrassenso é enorme. A pessoa danifica intencionalmente algo que dali a pouco tempo ela mesma irá necessitar (seja o ônibus com os acentos cortados a estilete, o telefone público todo cheio de adesivos horrorosos, a escola cujas carteiras e vidraças são quebradas, o computador da escola que é vandalizado, a biblioteca que tem páginas de livros arrancadas, etc.).

Existe uma frase extraída de um poema de autoria de John Donne publicado em 1624 que diz em certo trecho: “não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” Ou seja, a analogia que faço a partir desta frase consiste em que o indivíduo que realiza este tipo de ato ou manifesta comportamento não condizente com o tão almejado “padrão FIFA” não se dá conta de que o que ele está fazendo não atinge ao Estado, mas sim a si próprio. E o que é ainda pior, ao seu próximo.

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