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Luiz Valério P.Trindade
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Carinho, amor, afeição, bem querer, cuidado, interesse, saudade, proteção, simplicidade, cumplicidade, troca, confiança, respeito, amizade, namoro, relação afetiva, zelo, preocupação.

Incrível como um “simples” ato de andar de mãos dadas com outra pessoa possa simbolizar tantas coisas ao mesmo tempo. Para quem testemunha a cena fica um certo ar de mistério e indefinição, pois como o gesto pode significar tantas coisas, não é possível determinar com precisão qual o elo entre as duas pessoas.

Geralmente ele denota uma relação afetiva entre as duas pessoas, porém, não dá para afirmar categoricamente que, de fato, todos o são.

Contudo, independentemente disso, o gesto continua com uma certa aura de universalidade, na medida em que é capaz de simbolizar tantas coisas. Ele é simples, porém, ao mesmo tempo, muito forte.

Um beijo na boca, por exemplo, em virtude do elevado grau de intimidade que ele denota entre as duas pessoas, já não contém tanto mistério assim. Ele é mais objetivo e direto em seu significado: as duas pessoas têm uma forte relação afetiva.

Ele pode ser, digamos, um beijo comum ou então um beijo cinematográfico de arrancar suspiros de quem o testemunha, mas ainda assim continua com sua objetividade simbólica.

Por outro lado, dar as mãos, ou andar de mãos dadas com outra pessoa é considerado um ato tão prosaico pela maioria das pessoas, que passa praticamente despercebido. Tanto é verdade que na literatura, em telenovelas, cinema e teatro, não consigo identificar registros de cenas que enalteçam e/ou valorizem este gesto.

Acredito que você também não conseguirá se recordar, por exemplo, de nenhum filme de comédia romântica que tenha algum momento em sua trama onde se destaque o instante onde os protagonistas tenham se dado as mãos pela primeira vez, ou então em momentos subsequentes.

Em contrapartida, creio que você conseguirá resgatar em sua memória incontáveis cenas de beijos entre casais, cenas de relações íntimas (desde as que são meramente insinuadas até as mais explícitas), de declaração de um sentimento mais forte, pedidos de casamento, rompimentos, entre inúmeras outras situações.

Isso quer dizer então que eles não têm seu valor ou que são lugar comum?

Bom, não é bem isso que quero dizer. Naturalmente que são importantes e fazem parte do amplo espectro de manifestações de afeto entre as pessoas.

Contudo, a proposta que trago consiste em um convite para a ampliação da percepção das pessoas e para que passem a notar e valorizar também este gesto.

Em economia existe um termo em inglês chamado “commodity”, o qual serve para designar produtos e mercadorias que são tão básicas que é praticamente impossível distinguir-se diferenças substanciais entre elas.

Consequentemente, os produtos classificados como “commodity” têm geralmente como único atributo de valor seu preço, ou seja, eles são vistos predominantemente como caros ou baratos. Simples assim.

Bom, mas como este texto não é sobre economia, vamos parar por aqui. Mais adiante resgatarei este conceito para ilustrar outro aspecto.

Quando somos crianças, na maior parte do tempo em que andamos na companhia de pessoas adultas e/ou irmãos mais velhos, o fazemos de mãos dadas. Isso nos transmite segurança, cuidado, apreço, zelo, carinho, etc.

É uma sensação muito gostosa e aprendida com muita facilidade, de tal forma que em muitos momentos instintivamente nossa mão procura pela da outra pessoa em busca dessas sensações.

Conforme vamos crescendo, saindo da infância e entrando na pré-adolescência e, posteriormente, na adolescência mesmo propriamente dita, as coisas mudam um pouco. Já não desejamos tanto andar de mãos dadas com as pessoas adultas (e menos ainda com os irmãos mais velhos), porque atingimos uma fase da vida onde o que predomina é o senso de liberdade e independência.

Naturalmente que o gesto ainda estará presente nesta fase da vida em virtude do surgimento dos primeiros relacionamentos afetivos, porém, mais restrito a eles. Além disso, como esta fase é marcada também por um grande número de descobertas, geralmente os jovens estão em busca de, digamos, subir os níveis de experiências sensoriais.

Já na fase adulta, considero como sendo assim a mais crítica neste processo, pois grande parte das experiências sensoriais já foram vivenciadas na juventude. Desta forma, o que antes era encarado como novidade, mágico e até revelador, aqui ele adquire o caráter de “commodity” (não disse que resgataria o conceito mais adiante?).

Ou seja, se alguns anos antes o gesto de andar de mãos dadas significava tantas coisas para nós (ou para usar novamente um jargão do mundo dos negócios: ele possuía atributos de diferenciação), infelizmente ele se transformou em “commodity” sem (ou então com poucos) atributos de diferenciação. Em outras palavras, se tornou lugar comum.

De fato, os gestos instintivos e comuns aprendidos na infância têm mesmo esta característica de serem encarados de forma simplória.

Isso é feito intencionalmente? Não!

Isso é feito com o objetivo de desvalorizá-lo? Também não!

Ele simplesmente acontece.

Quantos de nós paramos para pensar em quanto é mágico o ato de podermos caminhar e/ou correr, por exemplo? De falar? De olhar?

Salvo, naturalmente, as pessoas que foram acometidas por alguma fatalidade que as impediu ou impede (seja temporariamente ou permanentemente) de executar essas funções, considero que muito poucas.

Continuando a reflexão sobre o gesto de andar de mãos dadas, avalio que existe um outro aspecto digno de observação. Enquanto geralmente os jovens têm uma predisposição natural a demonstrar acaloradas manifestações de carinho em público (principalmente com abraços prolongados, beijos de boca, agarrões, etc.), conforme vamos nos tornando adultos, estas manifestações públicas vão também se tornando mais comedidas e discretas.

Quando se atinge então a chamada terceira idade (ou melhor idade, de acordo com terminologias mais recentes), estes gestos mais acalorados são ainda mais raros de se presenciar.

No entanto, se avaliarmos as quatro principais fases na vida de uma pessoa (infância, juventude, vida adulta e idosa), qual manifestação de carinho passa incólume por todas elas?

O gesto de andar de mãos dadas!

Ou seja, ele é um gesto absolutamente atemporal, passível de ser “praticado” em qualquer circunstância (tanto em ambientes mais reservados quanto em público) sem causar nenhum tipo de choque ou constrangimento. E diria até mesmo verdadeiramente democrático na medida em que está ao alcance de qualquer pessoa independentemente de classe social, etnia, idade, credo ou orientação sexual.

Portanto, para finalizar, reitero que o objetivo deste texto não reside em realizar uma análise de julgamento de valor sobre as escolhas das pessoas, mas sim de atuar como um despertar. Aliás, pensando melhor, considero que despertar nem é o verbo mais apropriado, mas sim resgatar. Penso que o texto contribui no movimento de resgatar esta experiência sensorial tão importante que é o “simples” ato de andar de mãos dadas, pois ele é incrível.

Acredite!

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